• Bruna Vinsky

Estética Prática - Mamet & Macy


Apresentação: Este projeto foi contemplado pelo Edital de Fomento da Juventude do Fundo de Arte e Cultura de Goiás 2018.


(clique aqui para acessar o vídeo em demonstração prática)


AÇÃO E MOVIMENTO

de “Action and Moment: an introduction to Practical Aesthetics”

by Linda Buchwall | publicado no site dramatics.org

Traduzido por Bruna Vinsky em 08/2020



A Atlantic Theatre Company de Nova York é o lar de muitos shows Off-Broadway de alto nível, alguns destes são até levados para a Broadway, incluindo os musicais vencedores do prêmio Tony, The Band's Visit e Spring Awakening. É também uma escola de atuação onde é ensinada a técnica Estética Prática.


Mary McCann, diretora executiva da Atlantic Acting School, aprendeu Estética Prática à medida que ela era desenvolvida. Ela se lembra de ter estudado na Universidade de Nova York no início dos anos 1980, e de ter feito testes para com o dramaturgo David Mamet e o ator William H. Macy. Eles ensinaram a ela e a um grupo de outros alunos da NYU o método de Estética Prática, em que estavam trabalhando. Junto com esses alunos, Mamet e Macy refinaram o método e formaram a Atlantic Theatre Company.



PRINCÍPIOS DA ESTÉTICA PRÁTICA


“Acho a Estética Prática maravilhosa, pois é um método muito específico, prático e possível, mas também é uma filosofia do fazer teatral enraizada na grande tradição de trupes”, disse Anya Saffir, que leciona na Atlantic Acting School há quase 20 anos. Como McCann, Saffir treinou o método de Estética Prática com membros originais da companhia quando era aluna da Tisch School of the Arts da NYU.


Existem dois pilares fundamentais na técnica: 1. Pense antes de agir e 2. Aja antes de pensar. A abordagem é dividida ainda em questões essenciais que se relacionam com os conceitos de ação e momento.


McCann lembra que Mamet e Macy colocaram três perguntas no quadro. “Eles disseram que se você pode responder a essas três perguntas, você pode aprender a atuar”, disse ela. “Parece prático e simples para começar, mas quando você continua revendo essas questões filosóficas, torna-se uma abordagem muito sofisticada de atuação e criação de histórias dos personagens.”


As três questões iniciais tornaram-se quatro, que agora compõem a abordagem de análise de roteiro que compõe a parte “pensar antes de agir” da Estética Prática. “É um processo de análise de roteiro muito rigoroso, projetado para ajudar o ator a explorar as circunstâncias dadas, fazer pesquisas, realmente entender o roteiro e o personagem e começar a fazer escolhas para seu próprio desempenho pessoal de como contar essa história”, disse McCann.


As quatro perguntas são:


1) Literal: o que o personagem está literalmente fazendo em cena?

2) Vontade: o que o personagem quer do outro personagem em cena?

3) Ação: o que a atriz ou ator fará para atingir esse objetivo?

4) Suposição: "e se" fosse comigo, ou, o que isso significa para mim?



Em seguida vem “agir antes de pensar”, que se baseia no trabalho de repetição do professor de atuação Sanford Meisner, e envolve a realização de diferentes exercícios destinados a descobrir a verdade do momento. “Queremos que o público saia do teatro falando sobre a peça, falando sobre a jornada do herói, falando sobre o que o protagonista passou em termos de superação dos obstáculos – ao invés da atuação do ator”, disse McCann. “Acreditamos que o público precisa assistir a história se desenrolar e ver os atores buscando o que quer que [os personagens] estejam buscando de uma maneira muito verdadeira, então esmiuçamos para compreender a natureza essencial. Uma vez que o ator tenha determinado a natureza da ação que irá interpretar, a resposta de 'Como você irá interpretar a ação?' se baseará no que você recebe da outra pessoa [personagem em cena]”.


Embora McCann se refira a esse exercício como “uma técnica bem dramaturga”, ela acredita que ele também pode ser usado para “desmistificar o processo de atuação”.



QUAL O DIFERENCIAL DA ESTÉTICA PRÁTICA?


Embora McCann diga que muitas técnicas agora incorporem algumas das mesmas ideias da Estética Prática, na época em que foi criada ela parecia bastante inovadora. “Nós realmente abordamos o personagem de uma maneira que parecia radical na época, porque David [Mamet] dizia que não existe personagem. São palavras na página”, disse ela. “Ele dizia: 'Você não precisa pensar em nenhum grupo predisposto de perguntas sobre quem sou eu e como me tornei esse personagem'. Isso não é algo que fazia parte da conversa. Você não está se tornando o personagem; você está criando uma ilusão do personagem.”


O passo “e se” também diferenciou a Estética Prática de outras abordagens de atuação naquela época. “O ‘e se’ era como usar sua imaginação para explorar quais riscos são necessários para a cena”, disse McCann. “Você se coloca pessoalmente através da imaginação, em oposição ao uso de uma memória pessoal.”


Embora a técnica seja baseada nos ensinamentos de Constantin Stanislavski, Saffir diz que o que torna a Estética Prática única é a análise rigorosa do roteiro. “Muitos atores não sabem o que fazer quando recebem um roteiro. Este método realmente lhe diz como se aprofundar nele. Mas uma vez que o trabalho esteja feito, você sobe no palco e o dispensa. É como um exercício de confiança gigante na sua preparação”, disse ela.


A ideia de separar o pensar do fazer está no centro desta técnica, mais do que em muitas outras. “Quando você está atuando você não deve pensar [na atuação], e quando você está pensando [na atuação] você não está realmente sentindo sua preparação profundamente [a motivação do personagem]”, disse Saffir. “Mas [quando você separa os dois], você pode ganhar o benefício de entrar em um estado de fluxo de atuação e interpretar os momentos como uma espécie de improvisação fluida com os outros atores que estão no palco.”



CONSELHOS PARA ATORES INICIANTES


Interessado em experimentar a Estética Prática? McCann e Saffir oferecem estes conselhos:


Comece com [o livro] Um Manual Prático para o Ator

Um Manual Prático para o Ator [em tradução livre do inglês: A Practical Handbook for the Actor] foi publicado em 1986, a partir de resumos da técnica elaborados pelos alunos originais [de Mamet e Macy]. Foi atualizado e evoluído desde então, e McCann diz que ainda é o melhor lugar para começar a ter uma ideia da técnica.


Permita-se amar

Saffir aconselha cultivar o amor pela história do seu personagem e garantir que, em qualquer ensaio, você seja dedicado ao seu parceiro de atuação.


Prepare-se para improvisar

“Prepare-se para improvisar” é o lema da Atlantic, segundo Saffir. “O que eu acho incrível e até um pouco radical na Estética Prática, é que a fruição orgânica do momento acontece depois de você obter esse benefício por meio de um rigoroso trabalho de roteiro e preparação”, disse ela. “Obviamente, para o ator, o texto é inegociável e isso nunca é improvisado. Os momentos reais que acontecem entre dois seres humanos que têm a capacidade para esse tipo de receptividade em relação ao outro. Esses momentos são improvisação, uma dança que você recria todas as noites.”


McCann admite que o termo Estética Prática parece um tanto acadêmico e, de fato, ela diz: “Quando você começa, pode parecer uma abordagem acadêmica rigorosa. Mas, no final das contas, é super criativo, libertador e envolvente para a imaginação em todos os sentidos.”



FONTES

Atlantic Acting School

A Practical Handbook for the Actor, por Melissa Bruder, Lee Michael Cohn, et. al.


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EXERCÍCIO DA ESTÉTICA PRÁTICA


Observação do outro sem uma intenção consciente, mas quando vier um apontamento orgânico, fazer a observação sobre o outro, que deve concordar, e seguir pelo desenvolvimento da repetição rumo a uma intenção clara sobre o colega de cena.


Ao invés de apenas reagir conforme a interação com o outro, como na técnica Meisner, a repetição será influenciada pela vontade que se tem sobre o outro. A meta desta prática é tornar os atores afiados à observação das expressões dos outros e a darem respostas rápidas, sendo capazes de impor os objetivos do papel durante a ação.


Sortear uma emoção e criar uma micro-narrativa a partir dela, depois sortear uma das 11 ações sugeridas para o colega imaginado de cena e uma para si, e reagir e agir sob intenção delas:


1) Trazer alguém para o seu time;

2) Impor as leis;

3) Estabelecer uma linha divisória;

4) Convencer alguém a se arriscar;

5) Receber o que me é devido/recuperar o que é meu por direito;

6) Fazer com que alguém enxergue a perspectiva geral

7) Iluminar alguém sobre uma compreensão mais elevada;

8) Contar uma história simples;

9) Chegar à conclusão de algo;

10) Fechar um negócio;

11) Conseguir que alguém te salve.


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Bruna Vinsky

Produtora, formada em teatro, bacharelando em cinema e pesquisadora no campo da preparação

de elenco.

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